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domingo, 2 de outubro de 2011

ISAAC ASIMOV - A MÁQUINA QUE GANHOU A GUERRA

As comemorações ainda deviam se prolongar bastante, e mesmo nas silenciosas
profundezas das câmaras subterrâneas do Multivac havia algo de diferente no ar.
Em primeiro lugar, havia o simples fato do silêncio e do isolamento. Pela primeira
vez nos últimos dez anos, não havia técnicos correndo pelos passadiços do imenso
computador, as luzes não estavam piscando nos seus costumeiros padrões
erráticos, o fluxo de entrada e saída de informações tinha sido interrompido.
Não por muito tempo, é claro, porque a implantação da paz iria impor suas próprias
exigências. Mas naquele instante, por um só dia, talvez por uma semana, mesmo o
Multivac tinha o direito de comemorar a grande data e repousar.
Lamar Swift tirou o quepe militar que usava e fitou o longo corredor central do
computador gigante, que se estendia vazio à sua frente. Estava sentado numa das
cadeiras giratórias usadas pelos técnicos, e seu uniforme, dentro do qual ele nunca
chegara a se sentir confortável, tinha uma aparência gasta e amarrotada.
- Acho que vou sentir falta disso, por mais horrível que possa parecer - disse ele. - É
difícil lembrar de um tempo em que não estivéssemos em guerra com Deneb; agora
parece antinatural saber que estamos em paz e podemos olhar sem medo para as
estrelas.
Os dois homens da Diretoria Executiva da Federação Solar eram ambos mais jovens
do que Swift. Nenhum deles tinha tantos cabelos brancos. Nenhum tinha uma
expressão tão cansada.
John Henderson, lábios finos, mal conseguindo controlar o alívio que sentia em meio
à sensação de vitória, exclamou:
- Foram destruídos! Totalmente destruídos! Fico repetindo isso o tempo todo e ainda
não consigo acreditar. Passamos todos estes anos falando da ameaça que pairava
sobre nós, sobre os demais planetas, sobre cada ser humano, e era verdade, cada
palavra do que dizíamos era verdade. Agora estamos vivos... os denebianos é que
foram dizimados, destruídos! Nunca mais nos atacarão de novo.
- Graças ao Multivac - disse Swift, lançando um olhar de esguelha ao imperturbável
Jablonsky, que durante toda a guerra tinha sido o Intérprete-Chefe do "oráculo" dos
cientistas. - Certo, Max?
Jablonsky encolheu os ombros. Maquinalmente procurou um cigarro no bolso, mas
acabou mudando de idéia. Ele era o único entre os milhares de técnicos que
trabalhavam nos túneis interiores do Multivac que tinha autorização para fumar; mas
nos estágios finais da guerra ele tinha feito um esforço heróico para abrir mão desse
privilégio.
- Bom - disse ele, pelo menos é o que eles dizem. - Seu enorme polegar apontou
para o alto, por sobre o ombro direito.
- Ciumento, Max?
- Porque estão brindando ao Multivac? Porque o Multivac foi o grande herói da
humanidade nesta guerra? - O rosto áspero de Jablonsky assumiu um ar
desdenhoso.
- O que tenho eu a ver com isso? Deixe que o Multivac seja a máquina que ganhou
a guerra, se isso agrada a eles.
Henderson olhou de esguelha para os dois homens. Naquele breve interlúdio em
que os três tinham instintivamente se abrigado no único lugar tranqüilo de uma
metrópole entregue ao delírio da comemoração; naquele compasso de espera entre
os perigos da guerra e as dificuldades da paz; naquele instante em que todos eles
podiam respirar aliviados, ele estava consciente apenas do fardo da culpa que
carregava.
De súbito, foi como se aquele peso se tornasse grande demais para ser levado por
ele sozinho. Tinha que ser retirado de seus ombros. Juntamente com a guerra.
Agora!
- O Multivac não tem nada a ver com esta vitória - disse ele. - É apenas uma
máquina.
- Uma grande máquina - disse Swift.
- Tudo bem, uma grande máquina. Não é melhor do que os dados com que é
alimentada. - Parou por um momento, nervoso diante do que iria dizer em seguida.
Jablonsky o fitou em silêncio, com os dedos procurando novamente um cigarro e
novamente mudando de idéia. Falou, por fim:
- Bom, você é quem sabe. Você lhe fornecia os dados. Ou está querendo receber os
elogios por tudo?
- Nada de elogios - disse Henderson, zangado. - O que sabem vocês dos dados
utilizados pelo Multivac, pré-processados por centenas de computadores
subsidiários aqui na Terra, na Lua, em Marte, até mesmo em Titã? Com os dados de
Titã sempre chegando atrasados e nos deixando sempre naquela expectativa de
que quando chegassem iriam introduzir alguma variável inesperada...
- É, era uma loucura - disse Swift, com simpatia. Henderson abanou a cabeça
negativamente.
- Não se trata só disso. Reconheço que quando eu substituí Lepont como
Programador-Chefe, há oito anos, eu estava nervoso. Mas o clima daquela época
era diferente.
A guerra ainda estava sendo travada num front remoto, era uma espécie de
aventura sem nenhum perigo real. Ainda não tínhamos atingido o ponto em que foi
necessário utilizar naves tripuladas, ou quando armas interestelares podiam
deformar o espaço e engolir um planeta inteiro, se manipuladas corretamente. Mas
aí, quando as verdadeiras dificuldades tiveram início... - Sua voz permitiu-se enfim
exprimir toda a raiva que sentia. - Mas vocês não sabem nada sobre isso!
- Muito bem - disse Swift. - Que tal se você nos contasse? A guerra acabou.
Ganhamos.
- É mesmo - disse Henderson, assentindo com um gesto de cabeça. Tinha que ter
aquilo em mente. Tinham ganhado a guerra. Tinha dado tudo certo, afinal. - Bem...
acontece que a partir de uma certa época os dados já não faziam mais sentido.
- Não faziam sentido? Está dizendo isso literalmente? - perguntou Jablonsky.
- Literalmente. O que queriam vocês? O problema com vocês dois é que nunca
tomaram parte, para valer, nos acontecimentos. Você, Max, nunca saía do Multivac;
e quanto ao senhor, diretor, nunca deixava a Mansão, exceto em missões oficiais
onde via apenas o que os outros queriam lhe mostrar.
- Eu tinha consciência disso - disse Swift, como você mesmo, aliás, deve ter
percebido.
- Muito bem - prosseguiu Henderson. - Sabem até que ponto nossos dados
referentes a capacidade produtiva, potencial de recursos, pessoal qualificado... tudo
que era de importância vital para a guerra, na verdade... sabem até que ponto esses
dados se tornaram inúteis, não-confiáveis, durante a segunda metade da guerra?
Líderes civis e militares tentavam melhorar a própria imagem, omitindo os fatos
negativos e exagerando os positivos. Não importa o que os computadores fazem: os
homens que os programam e que interpretam seus resultados estavam pensando
em salvar a própria pele e em apresentar resultados melhores do que os de seus
concorrentes. Era impossível modificar isso. Eu tentei e falhei.
- Claro - disse Swift, tentando consolá-lo. - Não é de admirar que não tenha
conseguido.
Desta vez Jablonsky tomou a decisão de acender o cigarro.
- E no entanto - falou, isso não impediu que você continuasse supervisionando a
alimentação de dados para o Multivac. Você nunca nos disse nada sobre dados nãoconfiáveis.
- E como poderia dizer? Se eu dissesse, alguém iria acreditar em mim? - retorquiu
Henderson com irritação. - Todo o nosso esforço de guerra tinha que passar através
do Multivac. Era a única arma que poderia desequilibrar a guerra em nosso favor, já
que os denebianos não tinham nada semelhante. Nos momentos de maior perigo, o
que mantinha alto o nosso moral era a certeza de que o Multivac sempre conseguiria
prever e anular qualquer movimento denebiano e ao mesmo tempo evitar que eles
previssem e anulassem os nossos movimentos. Pelo Espaço! Depois que o nosso
sistema de Hiperespionagem foi reduzido a poeira cósmica, ficamos totalmente sem
dados sobre Deneb para fornecer ao Multivac... e nunca nos atrevemos a anunciar
isso em público.
- Isso é verdade - concordou Swift.
- Muito bem - prosseguiu Henderson. - Se eu dissesse a vocês que aqueles dados
não mereciam confiança, que outra coisa vocês poderiam fazer a não ser recusar-se
a acreditar em mim e me substituir por outro? Eu não podia correr esse risco.
- E o que fez, então? - perguntou Jablonsky.
- Bom... já que ganhamos a guerra, acho que agora posso contar tudo. Eu alterava
os dados.
- Como? - perguntou Swift.
- Intuição, talvez. Ficava mexendo neles até que me parecessem corretos. No
começo eu mal me atrevia. Mudava um detalhe aqui, outro acolá, apenas para
corrigir o que eram impossibilidades óbvias. Quando o céu não desabou sobre
minha cabeça, fui ficando mais corajoso. Já agora no final eu nem tomava muitas
precauções. Apenas me sentava e preparava os dados que me eram solicitados.
Consegui inclusive que o Anexo do Multivac preparasse dados para mim, de acordo
com um programa que criei especialmente para isso.
- Cifras aleatórias? - perguntou Jablonsky.
- Não propriamente. Eu introduzi um grande número de parâmetros indispensáveis.
Jablonsky deu um sorriso um tanto inesperado. Os olhos negros brilhavam por sob
as pesadas pálpebras.
- Por três vezes me chegaram relatórios falando de utilização não-autorizada do
Anexo - disse ele. - Sempre arquivei as denúncias. Se fosse algo importante, John,
eu teria seguido até lá e desmascararia o que estava fazendo. Mas é claro que
àquela altura o Multivac não estava mais realizando nada de importante, por isso
deixei-o prosseguir.
- O que quer dizer com isso, "nada de importante"? - perguntou Henderson,
desconfiado.
- A verdade. Se eu tivesse lhe contado tudo então, teria evitado muitas dores de
cabeça para você. Mas se você tivesse aberto o jogo comigo também teria evitado
as minhas. Quem lhe disse que o Multivac estava funcionando direito,
independentemente dos dados que recebia?
- Não estava? - perguntou Swift.
- Na verdade, não. Não merecia confiança. Veja bem: onde estavam meus técnicos
durante os últimos anos da guerra? Vou lhe dizer: estavam operando computadores
em mais de mil instalações especiais diferentes. Todos lá! Eu tive que tocar meu
trabalho com a ajuda de garotos inexperientes e de veteranos com formação
defasada.
Além do mais, acha que eu podia ter confiança nos componentes de estado sólido
que recebia da Criogenia nos últimos anos? Em matéria de pessoal qualificado, a
Criogenia estava tão despreparada quanto o meu setor. Para mim, era indiferente se
os dados colocados no Multivac eram confiáveis ou não. Os resultados não seriam,
em qualquer hipótese. Disso eu tinha certeza.
- E o que você fez? - perguntou Henderson.
- O mesmo que você: introduzi o fator subjetivo. Modifiquei os resultados de acordo
com a minha intuição... e foi assim que a máquina ganhou a guerra.
Swift se recostou para trás na cadeira e esticou as pernas para a frente,
exclamando:
- Mas quantas revelações! Quer dizer então que os relatórios que chegavam às
minhas mãos, o material em que eu me baseava para tomar decisões... eram uma
interpretação feita por um só indivíduo, a partir de dados inventados por um outro
indivíduo. Era isso?
- Tudo indica que era - disse Jablonsky.
- Então eu estava certo em não dar muita importância a esses relatórios.
- Não dar? - A despeito da confissão que tinha acabado de fazer, Jablonsky ainda
conseguiu compor um ar de orgulho profissional ferido.
- Infelizmente. O Multivac parecia estar dizendo: ataque aqui, não ali; faça isto, não
aquilo; espere, não aja. Mas eu nunca podia ter certeza de que o Multivac dizia de
fato o que parecia estar dizendo; ou melhor, se ele sabia o que estava dizendo. Eu
não podia estar seguro.
- Mas os relatórios finais eram sempre muito claros, senhor - disse Jablonsky.
- Talvez... para quem não tinha que tomar a decisão final. Eu tinha. Esse tipo de
responsabilidade acarreta um peso horrível, e nem mesmo o Multivac era suficiente
para remover esse peso. Mas o detalhe importante é: eu estava certo em duvidar, o
que me dá agora um tremendo alívio.
Envolvido por aquela atmosfera cúmplice, cheia de confissões, Jablonsky
abandonou as formalidades:
- Mas então, o que foi que você fez, Lamar? Porque o fato é que você tomava as
decisões. De que modo?
- Bem, acho que preciso ir andando, mas... é, acho que posso dizer-lhes. Por que
não, afinal? O fato, Max, é que lancei mão de um computador, mas um muito mais
antigo do que o Multivac. Muito mais antigo, mesmo.
Ele enfiou a mão no bolso e extraiu dali um maço de cigarros juntamente com um
punhado de pequenas moedas - dinheiro antigo, da época anterior ao racionamento
de metal que transformara o dinheiro num simples serviço de crédito, ligado a um
sistema computadorizado.
Swift deu um sorriso encabulado.
- Gosto de andar com isto... faz com que o dinheiro continue parecendo algo
substancial. Um homem da minha idade tem dificuldade em abandonar os hábitos da
juventude. Com um cigarro no canto da boca, ele foi recolocando as moedas no
bolso, de uma em uma. Não guardou a última: segurou-a na ponta dos dedos e ficou
fitando-a com olhar absorto.
- O Multivac não é o primeiro computador, camaradas, nem é o mais conhecido, nem
o que pode retirar mais eficientemente o peso da responsabilidade de sobre os
ombros de um executivo. A guerra ganha por uma máquina, John, e por um sistema
de computação na realidade muito simples, um que eu usei cada vez que tinha que
tomar uma decisão particularmente difícil.
Com um sorriso vagamente nostálgico, ele atirou a moeda para o alto com a unha do
polegar; ela rebrilhou no ar enquanto girava e voltou a cair sobre a palma da mão de
Swift. Seus dedos se fecharam sobre ela e num gesto hábil ele a pousou sobre as
costas da mão esquerda; ainda mantendo a mão direita na mesma posição,
ocultando a moeda, ele perguntou:
- E então, cavalheiros... cara ou coroa?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Conto: O gato preto (Edgar Allan Poe)



Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.

No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror - mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto - assim se chamava o gato - era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento - enrubesço ao confessá-lo - sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim - que outro mal pode se comparar ao álcool? - e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão - dissipados já os vapores de minha orgia noturna - , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado - um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo - coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.

Logo que vi tal aparição - pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa - , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme - tão grande quanto Pluto - e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo - e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse - detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê - seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente - , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo - apresso-me a confessá-lo - , pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar - sim, mesmo nesta cela de criminoso - , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível - que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa -, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável - um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso - encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim - pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros - os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade - e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite - e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia - e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

- Senhores - disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada - , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes - os senhores já se vão? - , estas paredes são de grande solidez.

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.

Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

Conto: Os Gatos de Ulthar (H. P. Lovecraft)






Dizem que em Ulthar, que se situa além do rio Skai, homem algum pode matar um gato. E posso de fato crer nisso ao colocar meus olhos sobre aquele que se senta ronronando em frente à lareira. Pois o gato é enigmático e próximo a coisas estranhas que os homens não conseguem ver. Ele é a alma do antigo Egito e portador de contos de cidades esquecidas em Meroë e Ophir. É parente dos senhores da selva e herdeiro dos segredos da África sinistra e anciã. A Esfinge é sua prima e ele fala a língua desta; porém, é mais velho que a Esfinge e lembra-se daquilo que ela já esqueceu.
Em Ulthar, antes que os cidadãos viessem a proibir a matança de gatos, moravam em uma cabana um velho e sua esposa, que se deleitavam em capturar e matar os gatos de seus vizinhos. O porquê de fazerem isso eu não sei, exceto que muitos odeiam a voz do gato à noite e vêem com maus olhos o fato de os gatos correrem livremente de maneira furtiva por pátios e jardins no crepúsculo. Mas qualquer que fosse a razão, esse velho e sua mulher tinham prazer em capturar e matar cada gato que chegasse perto de seu casebre; e por alguns sons ouvidos depois do anoitecer, muitos aldeões julgavam que o modo do assassínio era extremamente peculiar. Contudo, os aldeões não discutiam tais coisas com o velho e sua esposa, tanto por causa da expressão habitual nos rostos secos dos dois como pelo fato de que sua cabana era tão pequena e ficava oculta tão sombriamente sob carvalhos que se espalhavam nos fundos de um pátio mal cuidado. Na verdade, ainda que os donos dos gatos muito odiassem essa gente estranha, temiam-na ainda mais; e em vez de recriminá-los como assassinos brutais, simplesmente cuidavam para que nenhuma mascote ou rateiro fosse em direção ao casebre afastado sob as árvores escuras. Quando devido a algum descuido inevitável dava-se pela falta de um gato e ouviam-se sons após o anoitecer, aquele que o perdera lamentava impotente ou consolava-se agradecendo ao Destino por não ter sido um de seus filhos a desaparecer de tal forma. Pois as pessoas de Ulthar eram simples e não sabiam de onde todos os gatos vieram originalmente.
Um dia uma caravana de estranhos peregrinos do Sul adentrou as estreitas ruas de pedras arredondadas de Ulthar. Peregrinos escuros eram eles e diferentes dos outros errantes que passavam pela aldeia duas vezes por ano. Na praça do mercado liam a sorte em troca de prata e compravam contas vistosas dos mercadores. Qual era a terra desses peregrinos ninguém sabia dizer, mas via-se que eram dados a preces estranhas e que haviam pintado nas laterais de suas carroças figuras estranhas com corpos humanos e cabeças de gatos, falcões, carneiros e leões. E o líder da caravana usava na cabeça um ornamento com dois chifres e um disco curioso entre eles.
Havia nessa caravana peculiar um menino sem pai nem mãe, que possuía apenas um gatinho preto a quem dar afeto. A peste não havia sido bondosa para com ele, mas ainda assim havia lhe deixado essa coisinha peluda para mitigar seu sofrimento; e quando se é muito jovem, pode-se encontrar grande alívio nas estripulias animadas de um gatinho preto. De modo que o menino a quem o povo escuro chamava de Menes sorria mais freqüentemente do que chorava ao se sentar para brincar com seu gatinho gracioso nos degraus de uma carroça pintada de maneira singular.
Na terceira manhã da estada dos peregrinos em Ulthar, Menes não conseguiu encontrar seu gatinho. E enquanto soluçava em voz alta na praça do mercado, certos aldeões lhe contaram sobre o velho e sua esposa e os sons ouvidos à noite. E ao ouvir essas coisas seus soluços deram lugar à meditação e, por fim, à prece. Estendeu seus braços em direção ao sol e orou em uma língua que aldeão algum podia compreender, embora os aldeões em verdade não tenham tentado com muito afinco compreendê-la, uma vez que suas atenções estavam voltadas principalmente para o céu e para as formas bizarras que as nuvens estavam assumindo. Era algo bastante peculiar, mas enquanto o menino proferia sua súplica, no céu pareciam se formar as figuras nebulosas e sombrias de coisas exóticas, de criaturas híbridas coroadas com discos ladeados por chifres. A natureza é repleta de tais ilusões para impressionar aqueles com imaginação.
Naquela noite os peregrinos deixaram Ulthar e nunca mais foram vistos. E os moradores ficaram preocupados quando perceberam que em toda a aldeia não se encontrava um gato sequer. Os gatos domésticos haviam sumido de cada lar: gatos grandes e pequenos, pretos, cinzentos, listrados, amarelos e brancos. O Velho Kranon, o burgomestre, jurava que as pessoas escuras haviam levado embora os gatos como vingança pela morte do gatinho de Menes, e amaldiçoou a caravana e o menino. Porém, Nith, o magro notário, afirmava que o velho e sua esposa eram suspeitos mais prováveis, pois seu ódio por gatos era notório e cada vez mais ousado. Ainda assim, ninguém ousou reclamar com o sinistro casal, mesmo quando o pequeno Atal, o filho do estalajadeiro, jurou que havia visto no crepúsculo todos os gatos de Ulthar naquele pátio amaldiçoado sob as árvores, andando de maneira muito lenta e solene em um círculo ao redor da cabana, lado a lado em duas filas, como se realizando algum tipo de ritual de animais desconhecido. Os aldeões não sabiam o quanto acreditar em um menino tão pequeno e, embora temessem que o casal maligno houvesse enfeitiçado e atraído os gatos para a morte, preferiam repreender o velho do casebre quando o encontrassem do lado de fora do pátio sombrio e repelente.
De modo que Ulthar voltou a dormir tomada por uma raiva inútil; e quando as pessoas despertaram ao amanhecer, eis que cada gato estava de volta ao seu lar de costume! Grandes e pequenos, pretos, cinzentos, listrados, amarelos e brancos, não faltava nenhum. Muito lustrosos e gordos pareciam os gatos, a soarem com um contentamento ronronante. Os cidadãos falaram uns com os outros sobre o ocorrido e muito se espantaram. O Velho Kranon insistiu mais uma vez que foram as pessoas escuras que os haviam levado, visto que gatos não voltam vivos da cabana do velho e sua esposa. Mas todos concordavam em uma coisa: que a recusa de todos os gatos de comerem suas porções de carne ou de beberem seus pires de leite era extremamente intrigante. E por dois dias inteiros os gatos lustrosos e preguiçosos de Ulthar não tocaram em comida, apenas dormitando em frente às lareiras ou ao sol.
Passou-se uma semana inteira antes que os aldeões notassem que luz alguma aparecia ao entardecer nas janelas da cabana sob as árvores. O magro Nith observou então que ninguém havia visto o velho ou sua esposa desde a noite em que os gatos desapareceram. Dada outra semana, o burgomestre decidiu vencer seus medos e fazer uma visita à morada estranhamente silenciosa como uma questão de obrigação, embora ao fazê-lo teve o cuidado de levar consigo como testemunhas Shang, o ferreiro, e Thul, o canteiro. E quando arrombaram a frágil porta, o que encontraram foi somente isto: dois esqueletos humanos completamente limpos no chão batido e alguns besouros peculiares rastejando nos cantos escuros.
Posteriormente houve muito que se falar entre os habitantes de Ulthar. Zath, o legista, discutiu demoradamente com Nith, o magro notário; e Kranon, Shang e Thul foram assaltados de perguntas. Até mesmo o pequeno Atal, o filho do estalajadeiro, foi rigorosamente interrogado e recebeu uma guloseima como recompensa. Conversavam sobre o velho e sua esposa, sobre a caravana de peregrinos escuros, sobre o pequeno Menes e seu gatinho preto, sobre a prece de Menes e sobre o céu durante essa prece, sobre as ações dos gatos na noite em que a caravana partiu e sobre o que foi encontrado mais tarde na cabana sob as árvores escuras no pátio repulsivo.
E, por fim, os habitantes promulgaram aquela lei notável que é mencionada pelos comerciantes em Hatheg e discutida por viajantes em Nir; a lei que diz que, em Ulthar, homem algum pode matar um gato.


[Escrito em 15 de junho de 1920 e publicado originalmente na edição de novembro de 1920 do jornal amador The Tryout.]
Tradução de Gabriel Oliva Brum

sábado, 30 de abril de 2011

Contos: Shiro

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     Há muito tempo atrás, num vilarejo japonês, morava um casal de idosos.

     Um dia, o marido foi até uma montanha buscar lenha. Depois de algum tempo ficou cansado e sentou sob uma árvore para comer seu lanche. Enquanto comia, aproximou-se um cão branco raquítico. Então,o idoso disse:
- Coitado do cãozinho,deve estar com fome.

     E deu o resto do seu lanche para o cãozinho.

     Pegou seu amontoado de lenha e voltou para casa, acompanhado pelo cachorro. Chegando em casa, a mulher recebeu-o carinhosamente e preparou um prato de sopa. O cachorro tinha o pêlo bem branco, daí, decidiram dar o nome de Shiro ao cachorro. O casal decidiu ficar um tempo com o cachorro, cuidando dele, e cada vez mais, ele ia ficando bonito e apegado aos donos.


     Certo dia, o senhor estava trabalhando no campo perto da sua casa, e o cão divertia se ao seu lado. De repente, o cãozinho endireitou as orelhas e começou a latir fortemente.



- Qual o problema, Shiro? Está assustado? - pergunta o velhinho, preocupado.



     Surpreso, ele viu Shiro começando a cavar, achando que seria um osso, o velhinho ajuda ele com sua enxada. Até que ele encontra um pote com moedas de ouro. Seu vizinho, vendo a cena, fica morrendo de inveja, daí, vai à casa do senhor, pedindo:



- Queridos vizinhos, eu e minha esposa somos muito sozinhos e gostaríamos que vocês nos emprestasse Shiro para nos fazer companhia.

- Pobrezinhos... Podem pegá-lo!


     Shiro seguiu os vizinhos e, para libertar-se dos maus-tratos, começa a cavoucar o terreno, e nada. O avarento julgou estar em seu terreno o tesouro e acaba amarrando Shiro numa planta, e continuou a cavar. Cavou, cavou e nada.



     Indignado, o velho avarento começa a bater em Shiro, que se pôs a latir desesperadamente.  O velhinho, ouvindo os lamentos do cãozinho, foi até a casa do vizinho e impediu que continuasse a maltratar o animal. Mas infelizmente, seus esforços foram inúteis, Shiro morreu naquela noite.

No dia seguinte, o casal plantou um pinheiro e sepultaram o cãozinho, em prantos. Em pouco tempo, a planta cresceu.



- Minha querida, este é um milagre de Shiro. Tenho certeza que dentro desse pinheiro está sua alma.



- Também acho - disse a velhinha. 


     Um certo dia,ela diz:

- Lembra-se do doce de farinha de arroz que ele gostava tanto? Por que não constrói um pilão do tronco do pinheiro, para eu preparar a farinha de arroz? Em seguida, faço uma boa quantidade de doce e levo à sepultura de Shiro.

     O marido aprovou a idéia e fez prontamente o pilão. Quando pronto, jogaram arroz dentro e começaram a socar. Quando fizeram isso, ficaram muito surpresos ao ver que a cada golpe, o arroz multiplicava. Multiplicou tanto que, ao transbordar no chão, viravam moedas de ouro.


     O vizinho, bem informado por sinal, ficou sabendo do novo milagre e foi correndo até a casa dos vizinhos.



- Gostaria de fazer um doce de arroz e levar até a sepultura de Shiro, mas não tenho pilão pra preparar a farinha. Podem me emprestar o de vocês?


     O casal,gentilmente diz:


- Claro,pode levá-lo.


     O avarento voltou todo contente pra casa e começou a socar o arroz. Mas quanto mais socava, mais o arroz minguava e cada grão que caía no chão se transformava em uma minhoca. Furioso, ele destrói o pilão com um machado e queima os pedaços em sua lareira.

     No dia seguinte,o bom velhinho pediu de volta seu pilão. O avarento respondeu:

- Seu pilão rachou e eu o queimei. Se faz tanta questão, pode pegar as cinzas.


     Tristemente, o velhinho recolheu as cinzas do pilão e colocou-as num cesto. Enquanto voltava para casa, uma brisa fez voar um pouco de cinza num galho desfolhado. O galho imediatamente floresce. O bom velhinho, contente, grita:


- Faço florir galhos secos!

     Um príncipe, passando pelo local, chega ao velhinho e ordena que faça florir uma cerejeira seca. O velhinho subiu na árvore, espalhou as cinzas e imediatamente a cerejeira floresce.

- Magnífico! - Gritou o príncipe

     Como recompensa, o príncipe deu-lhe um saco cheio de moedas de ouro.

     O vizinho avarento, já sabendo da novidade, sentiu tanta inveja que correu até sua casa, pegou cinzas de sua lareira e gritou: "Faço florir galhos secos!"

     O príncipe,olha,curioso e percebe que não é o mesmo cara de antes, então o desafiou.

     O velho invejoso subiu por uma árvore e espalhou as cinzas pelos galhos secos e ao invés de florescer, as cinzas voaram para o rosto do príncipe. Irritado, ele ordenou aos seus soldados que tirassem aquele velho insolente da árvore.

     No chão, o velho ajoelha-se, conta a história de Shiro e suplica:

- É Shiro que está me punindo por minha maldade, mas aprendi minha lição. Alteza, tenha piedade de mim e deixe-me ir embora para expiar minhas culpas.

     O príncipe comoveu-se com a história e deixou o velhinho seguir adiante.

     Daí, o velho avarento se arrependeu, pediu perdão aos seus vizinhos e passou a orar pela alma do pobre cachorrinho.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Conto: A ultima resposta - Isaac Asimov



Murray Templeton tinha 45 anos de idade; estava na plenitude de sua vida e com todas as partes do
seu corpo funcionando com perfeição... exceto alguns trechos vitais de suas artérias coronárias.
Isso no entanto, foi o suficiente. A dor veio repentinamente, chegou a um ponto insuportável e, aos
poucos, foi diminuindo. Ele podia sentir a respiração parando. Uma deliciosa sensação de paz o inundou.
Não há nada mais agradável do que a ausência de dor - imediatamente depois da dor. Ele sentiu uma
alegria vertiginosa, como se tivesse levitado e estivesse pairando no ar.
Abriu os olhos e percebeu, com uma discreta alegria, que os outros ainda estavam agitados. Estava no
laboratório quando a dor o abateu sem nenhum aviso; ao cambalear ouviu os outros gritando surpresos.
Depois tudo deu lugar a uma agonia avassaladora.
Agora que a dor tinha passado os outros ainda estavam inquietos, ansiosos e reunidos em torno do seu
corpo caído...
Repentinamente, ele percebeu que estava olhando a cena, lá do alto. Seu corpo estava lá embaixo,
estirado no chão, com o rosto contorcido. Ele estava aqui em cima, observando em paz.
Pensou: milagre dos milagres! As besteiras sobre a vida eterna estavam certas.
Apesar de ser uma maneira humilhante para um físico ateu morrer, ele apenas sentiu uma agradável
surpresa, não houve nenhuma alteração na sensação de paz em que tinha mergulhado.
Ele pensou: devia haver algum anjo - ou uma coisa no gênero - vindo me receber.
A cena terrestre estava se desvanecendo. Sua consciência foi invadida pela escuridão e de um ponto
distante, como um último relance de visão, apareceu uma figura iluminada, com forma vagamente humana,
irradiando calor.
Murray pensou: estão brincando comigo. Estou indo para o céu.
Assim que ele pensou nisso, a luz se apagou, mas o calor continuou. A sensação de paz não diminuiu,
apesar de, em todo o Universo, restarem apenas ele... e a Voz.
- Faço isso com muita freqüência - disse a Voz, mas ainda assim me emociono a cada sucesso.
Murray pensou em dizer algo, mas não sabia se possuía uma boca, uma língua, ou cordas vocais. No
entanto, tentou articular um som. Sem a menor pretensão, tentou sussurrar palavras ou soprá-las ou colocálas
para fora por intermédio da contração de... alguma coisa.
E elas foram pronunciadas. Ele ouviu sua própria voz, facilmente identificável, e suas próprias palavras,
infinitamente claras.
- Isso é o céu? - disse ele.
- Esse lugar não é como o lugar que você imagina - disse a Voz.
Murray ficou atrapalhado, mas tinha que fazer a pergunta.
- Desculpe se pareço um pouco imbecil, mas você é Deus? Sem mudar a entonação ou de algum modo
pretendendo soar com perfeição, a Voz conseguiu ser engraçada.
- É estranho que sempre me perguntem isso, claro que das maneiras mais diferentes possíveis. Você não
compreenderia a resposta que posso lhe dar. Eu sou... isso é tudo o que posso dizer de significativo, e
você pode me rotular com palavra ou conceito que lhe agradar.
- E o que eu sou? - disse Murray. - Uma alma? Ou eu ainda sou apenas uma existência personificada? -
Tentou não parecer sarcástico, mas não conseguiu. Rapidamente pensou em acrescentar "Vossa Alteza" ou
"Santidade" ou algo que atenuasse o sarcasmo, e não pôde dizer isso, mesmo que, pela primeira vez em sua
existência, admitisse a possibilidade de ser punido com o inferno ou coisa semelhante por causa de sua
insolência - ou pecado? A Voz não parecia ofendida.
- É fácil você explicar-se... até mesmo para você. Você pode se chamar de alma, se isso lhe agrada, mas
você, na verdade, é uma conexão de forças eletromagnéticas, arrumadas de modo a que todas as
interconexões e inter-relações sejam exatamente iguais às do seu cérebro em sua existência universal... até
nos menores detalhes.
Além disso, você tem capacidade para pensar, ter lembranças e uma personalidade própria. Você vai
achar que ainda é você mesmo.
Murray ficou perplexo.
- Você quer dizer que a essência do meu cérebro é permanente?
- Não, de jeito nenhum. Nada seu é permanente, a não ser o que eu decidir que seja. Eu criei a conexão.
Eu a construí enquanto você desfrutava sua existência física e ajustei-a para o momento em que sua vida
terrestre chegasse ao fim. - A Voz parecia visivelmente satisfeita consigo mesma e, depois de uma rápida
pausa, acrescentou:
- Uma construção complexa, mas muito precisa. É claro que poderia fazer isso com todos os seres
humanos do seu mundo, mas prefiro não fazer. Sinto prazer em escolher.
- Você escolhe muito poucos, então.
- Muito poucos.
- E o que acontece com o resto?
- Caem no esquecimento. Ah, é verdade, você acredita no Inferno.
Murray teria corado se ainda tivesse um rosto.
- Não penso assim. É só uma maneira de falar. Até agora, nunca tinha pensado que fosse virtuoso ao
ponto de chamar a sua atenção e me tornar um Eleito.
- Virtuoso? Ah, sei o que quer dizer. É um incômodo ter que me forçar a pensar no mesmo nível que o
seu. Não, eu o escolhi por causa de sua capacidade de pensar, assim como escolho outros, em quatrilhões,
em todas as espécies inteligentes do Universo.
Murray se sentiu subitamente curioso, um hábito que adquirira quando era vivo.
- Você escolhe as pessoas sozinho ou há outros iguais a Você? Por um instante Murray pensou que
estava tirando a paciência da Voz, mas, quando Ela surgiu, continuava imperturbável.
- Se há outros ou não isso é irrelevante para você. O Universo é meu, só meu.
É uma invenção minha, uma construção minha, tudo foi planejado só para satisfazer meus propósitos.
- E mesmo com quatrilhões de conexões criadas por você, você perde tempo comigo? Sou tão
importante assim?
- Você não tem a menor importância - disse a Voz. - com os outros eu ajo de um modo que, na sua
maneira de ver, pareceria igual.
- Você é único?
- Você está tentando me colocar numa armadilha sem consistência - disse a Voz, num tom novamente
divertido. - Se você fosse uma ameba que só pudesse considerar a individualidade em conexão com
pequenas células, e se fosse perguntar a um cachalote com 30 quatrilhões de células se ele é um ou muitos,
de que forma o cachalote poderia responder para que isso fosse compreensível para a ameba?
- Pensarei nisso - disse Murray secamente. - Talvez um dia venha a entender.
- Exatamente. É para isso que está aqui. Para pensar.
- Com que finalidade? Parece que você já sabe tudo.
- Mesmo que eu soubesse tudo não poderia saber que sei tudo.
- Isso me lembra a filosofia ocidental... uma coisa que parece profunda exatamente porque não tem
significado.
- Você promete - disse a Voz. - Você responde ao meu paradoxo com um paradoxo... Só que o que eu
digo não é um paradoxo. Pense. Eu existo eternamente, mas o que isso quer dizer? Isso quer dizer que não
posso me lembrar de quando comecei a existir. Se pudesse, não existiria eternamente. Se não posso lembrar
de como comecei a existir, então pelo menos há uma coisa - a natureza das minhas origens - que não sei.
Assim, mesmo que eu saiba o que é infinito, também é verdade que o que há para conhecer também é
infinito, e como posso ter certeza de que os dois infinitos são iguais? A infinitude do potencial de
conhecimento pode ser infinitamente maior do que a infinitude do meu conhecimento atual. Aqui está um
simples exemplo: se eu conhecesse a totalidade dos números inteiros pares eu teria um número infinito de
informações e, mesmo assim, ainda não conheceria um único dos números inteiros ímpares.
- Mas os números inteiros ímpares podem ser derivados. Se você dividir todos os números inteiros pares
dessa série infinita por dois, você vai obter outra série infinita que contém dentro de si a série infinita dos
números ímpares.
- Você tem a noção - disse a Voz. - Estou satisfeito. Sua tarefa será encontrar outros caminhos como
esse, por mais difíceis que sejam, do conhecimento para o ainda-não-conhecido.
Você ainda tem memória. Você se lembrará de todos os dados que já tenha pesquisado ou aprendido,
que já tenha deduzido ou que venha a deduzir desses dados. Se necessário, terá permissão para aprender os
novos dados que considerar relevantes para resolver os problemas que você mesmo estabelecer.
- Você não poderia fazer isso sozinho?
- Posso - respondeu a Voz. - Mas assim é mais interessante. Construí o Universo para ter mais fatos com
que lidar. Inseri o princípio da incerteza, a entropia e outros fatores casuais para fazer com que o todo não
seja tão monótono. Isso tem funcionado muito bem e tem me entretido ao longo de toda a minha existência.
- Depois, pensei em estruturas que dessem origem à vida, e, em seguida, à inteligência, e usei isso
como uma forma de pesquisa coletiva, não porque precise de ajuda, mas porque isso introduziria um novo
fator casual. Cheguei à conclusão de que não podia prognosticar a próxima área de interesse a ser
conquistada pelo conhecimento, de onde ela viria, de que forma seria obtida.
- Isso já aconteceu? - perguntou Murray.
- Certamente. Não há um século em que não apareça alguma coisa interessante em algum lugar.
- Algo que você poderia ter pensado sozinho, mas que até então não tinha feito.
- Sim.
- Você acha mesmo que há alguma coisa que eu possa fazer por você?
- No próximo século? Literalmente não. No entanto, a longo prazo o seu sucesso é certo, desde que você
se engaje para sempre.
- Poderei pensar eternamente? Para sempre?
- Sim.
- Para quê?
- Já lhe disse. Para adquirir novos conhecimentos.
- Mas, além disso, para que preciso descobrir novos conhecimentos?
- Foi o que você fez em sua vida terrestre. Qual o seu objetivo naquela época?
- Adquirir novos conhecimentos que só eu pudesse adquirir. Para ser admirado pelos meus
companheiros. Para sentir a satisfação de concluir um trabalho, mesmo sabendo que tinha um tempo certo
para alcançar o meu objetivo. Agora eu só poderia conquistar algo que, se você se esforçasse um pouco,
poderia descobrir sozinho. Você não pode me admirar. Você só quer se divertir. E não há mérito ou satisfação
em concluir um estudo quando se tem toda a eternidade para isso.
- Você não acha que um pensamento e uma descoberta se justificam por si só? Você não acha que isso
é mais importante do que qualquer objetivo pessoal?
- Por um tempo finito, sim. Não para toda a eternidade.
- Compreendo o seu problema. No entanto, você não tem escolha.
- Você diz que estou aqui para pensar, mas não pode me obrigar a fazer isso.
- Não pretendo obrigá-lo diretamente. Não precisarei disso. Já que a única coisa que pode fazer é
pensar, você pensará. Você não sabe como não pensar.
- Então, estabelecerei uma meta para mim. Inventarei um objetivo.
- Certamente, você pode fazer isso - disse a Voz, tolerante.
- Já encontrei um objetivo.
- Posso saber qual é?
- Você já sabe. Sei que estamos falando só por falar. Você ajustou minha conexão de um modo que
acredite ouvi-lo e falarlhe, mas você transfere pensamentos para mim diretamente. E quando minha conexão
muda com meus pensamentos, imediatamente você os adivinha, sem precisar da minha transmissão
voluntária.
- Você está surpreendentemente certo - disse a Voz. - Estou satisfeito. Mas também me satisfaz ter você
para me contar seus pensamentos voluntariamente.
- Então, eu lhe contarei. O objetivo de minhas reflexões será descobrir uma forma para interromper a
conexão que você criou para mim. Não quero pensar apenas com o propósito de diverti-lo. Não quero pensar
para sempre só para diverti-lo. Não quero existir para sempre só para diverti-lo. Todas as minhas reflexões se
voltarão
para acabar com essa conexão. Isso me divertia.
- Não faço nenhuma objeção - disse a Voz. - Até um pensamento concentrado no fim de sua própria
existência pode, a despeito de você, levar a algo novo e atraente. E, é claro, se você for bem-sucedido na sua
tentativa de suicídio, não concluirá nada, pois imediatamente eu o reconstruiria e, de uma certa forma,
tornaria seu método de suicídio impossível. E se você achasse uma outra forma mais sutil para interromper a
si mesmo, eu o reconstruiria com essa possibilidade eliminada, e por aí em diante. Poderia ser um jogo
interessante, mas, de um jeito ou de outro, você existirá eternamente. Esta é minha vontade.
Murray sentiu um tremor, mas as palavras saíram naturalmente.
- Estou no Inferno, afinal? Você afirmou que não, mas se isso fosse o Inferno, você mentiria, como parte
do jogo do Inferno.
- Nesse caso, tudo o que você precisa é que lhe garanta que não está no Inferno? Então, eu lhe garanto.
Aqui não há nem Céu nem Inferno. Somente eu mesmo.
- Leve em conta, então, que meus pensamentos podem ser inúteis para você. Se não posso ser-lhe útil
em nada, não lhe custará nada... me desmontar e parar de me incomodar.
- Como uma recompensa? Você quer o Nirvana como prêmio para o fracasso e quer me garantir que
fracassará? Não há nenhum acordo nisso. Você não falhará. com toda a eternidade pela frente, você não
pode evitar de ter ao menos um pensamento interessante, mesmo que seja contra sua vontade.
- Então criarei outro objetivo para mim. Não tentarei me destruir. Minha meta será desmoralizá-lo.
Pensarei em alguma coisa em que você não apenas nunca tenha pensado, mas na qual jamais poderia
pensar. Pensarei na última resposta, além da qual não há mais nenhum conhecimento.
- Você não compreende a natureza do infinito. Talvez haja coisas que ainda não tenha me preocupado
em saber. Mas não há nada que eu não possa saber.
- Você não pode saber sobre sua origem - disse Murray, pensativo. - Você disse isso. Além do mais, você
não pode conhecer seu fim. Muito bem, então. Esse será o meu objetivo e essa será a última resposta. Não
me destruirei. Eu destruirei você... Se você não me destruir antes.
- Ah - disse a Voz. - Imaginei que você precisasse de mais tempo para chegar a esse ponto. Pensei que
fosse demorar mais. Não há ninguém, em toda a minha existência de pensamentos perfeitos e eternos, que
não tenha a ambição de me destruir. Mas isso é impossível.
- Tenho toda a eternidade para pensar numa maneira de destruí-lo.
- Então tente pensar nisso - disse a Voz, serenamente.
Ela se foi. Mas Murray tinha seu objetivo e estava feliz.
E o que poderia alguma Entidade, consciente de sua existência querer... senão o fim? O que mais vinha
a Voz procurando, através de incontáveis bilhões de anos? E por que outra razão a inteligência tinha sido
criada, e certas espécies tinham sido protegidas e colocadas para trabalhar, a não ser para ajudar numa
grande procura? Murray pretendia que fosse ele e ele sozinho, o descobridor.
Cuidadosamente, com a excitação de quem agora tinha um objetivo, Murray começou a pensar.
Ele tinha tempo de sobra.