terça-feira, 10 de maio de 2011

Conto: Os Gatos de Ulthar (H. P. Lovecraft)






Dizem que em Ulthar, que se situa além do rio Skai, homem algum pode matar um gato. E posso de fato crer nisso ao colocar meus olhos sobre aquele que se senta ronronando em frente à lareira. Pois o gato é enigmático e próximo a coisas estranhas que os homens não conseguem ver. Ele é a alma do antigo Egito e portador de contos de cidades esquecidas em Meroë e Ophir. É parente dos senhores da selva e herdeiro dos segredos da África sinistra e anciã. A Esfinge é sua prima e ele fala a língua desta; porém, é mais velho que a Esfinge e lembra-se daquilo que ela já esqueceu.
Em Ulthar, antes que os cidadãos viessem a proibir a matança de gatos, moravam em uma cabana um velho e sua esposa, que se deleitavam em capturar e matar os gatos de seus vizinhos. O porquê de fazerem isso eu não sei, exceto que muitos odeiam a voz do gato à noite e vêem com maus olhos o fato de os gatos correrem livremente de maneira furtiva por pátios e jardins no crepúsculo. Mas qualquer que fosse a razão, esse velho e sua mulher tinham prazer em capturar e matar cada gato que chegasse perto de seu casebre; e por alguns sons ouvidos depois do anoitecer, muitos aldeões julgavam que o modo do assassínio era extremamente peculiar. Contudo, os aldeões não discutiam tais coisas com o velho e sua esposa, tanto por causa da expressão habitual nos rostos secos dos dois como pelo fato de que sua cabana era tão pequena e ficava oculta tão sombriamente sob carvalhos que se espalhavam nos fundos de um pátio mal cuidado. Na verdade, ainda que os donos dos gatos muito odiassem essa gente estranha, temiam-na ainda mais; e em vez de recriminá-los como assassinos brutais, simplesmente cuidavam para que nenhuma mascote ou rateiro fosse em direção ao casebre afastado sob as árvores escuras. Quando devido a algum descuido inevitável dava-se pela falta de um gato e ouviam-se sons após o anoitecer, aquele que o perdera lamentava impotente ou consolava-se agradecendo ao Destino por não ter sido um de seus filhos a desaparecer de tal forma. Pois as pessoas de Ulthar eram simples e não sabiam de onde todos os gatos vieram originalmente.
Um dia uma caravana de estranhos peregrinos do Sul adentrou as estreitas ruas de pedras arredondadas de Ulthar. Peregrinos escuros eram eles e diferentes dos outros errantes que passavam pela aldeia duas vezes por ano. Na praça do mercado liam a sorte em troca de prata e compravam contas vistosas dos mercadores. Qual era a terra desses peregrinos ninguém sabia dizer, mas via-se que eram dados a preces estranhas e que haviam pintado nas laterais de suas carroças figuras estranhas com corpos humanos e cabeças de gatos, falcões, carneiros e leões. E o líder da caravana usava na cabeça um ornamento com dois chifres e um disco curioso entre eles.
Havia nessa caravana peculiar um menino sem pai nem mãe, que possuía apenas um gatinho preto a quem dar afeto. A peste não havia sido bondosa para com ele, mas ainda assim havia lhe deixado essa coisinha peluda para mitigar seu sofrimento; e quando se é muito jovem, pode-se encontrar grande alívio nas estripulias animadas de um gatinho preto. De modo que o menino a quem o povo escuro chamava de Menes sorria mais freqüentemente do que chorava ao se sentar para brincar com seu gatinho gracioso nos degraus de uma carroça pintada de maneira singular.
Na terceira manhã da estada dos peregrinos em Ulthar, Menes não conseguiu encontrar seu gatinho. E enquanto soluçava em voz alta na praça do mercado, certos aldeões lhe contaram sobre o velho e sua esposa e os sons ouvidos à noite. E ao ouvir essas coisas seus soluços deram lugar à meditação e, por fim, à prece. Estendeu seus braços em direção ao sol e orou em uma língua que aldeão algum podia compreender, embora os aldeões em verdade não tenham tentado com muito afinco compreendê-la, uma vez que suas atenções estavam voltadas principalmente para o céu e para as formas bizarras que as nuvens estavam assumindo. Era algo bastante peculiar, mas enquanto o menino proferia sua súplica, no céu pareciam se formar as figuras nebulosas e sombrias de coisas exóticas, de criaturas híbridas coroadas com discos ladeados por chifres. A natureza é repleta de tais ilusões para impressionar aqueles com imaginação.
Naquela noite os peregrinos deixaram Ulthar e nunca mais foram vistos. E os moradores ficaram preocupados quando perceberam que em toda a aldeia não se encontrava um gato sequer. Os gatos domésticos haviam sumido de cada lar: gatos grandes e pequenos, pretos, cinzentos, listrados, amarelos e brancos. O Velho Kranon, o burgomestre, jurava que as pessoas escuras haviam levado embora os gatos como vingança pela morte do gatinho de Menes, e amaldiçoou a caravana e o menino. Porém, Nith, o magro notário, afirmava que o velho e sua esposa eram suspeitos mais prováveis, pois seu ódio por gatos era notório e cada vez mais ousado. Ainda assim, ninguém ousou reclamar com o sinistro casal, mesmo quando o pequeno Atal, o filho do estalajadeiro, jurou que havia visto no crepúsculo todos os gatos de Ulthar naquele pátio amaldiçoado sob as árvores, andando de maneira muito lenta e solene em um círculo ao redor da cabana, lado a lado em duas filas, como se realizando algum tipo de ritual de animais desconhecido. Os aldeões não sabiam o quanto acreditar em um menino tão pequeno e, embora temessem que o casal maligno houvesse enfeitiçado e atraído os gatos para a morte, preferiam repreender o velho do casebre quando o encontrassem do lado de fora do pátio sombrio e repelente.
De modo que Ulthar voltou a dormir tomada por uma raiva inútil; e quando as pessoas despertaram ao amanhecer, eis que cada gato estava de volta ao seu lar de costume! Grandes e pequenos, pretos, cinzentos, listrados, amarelos e brancos, não faltava nenhum. Muito lustrosos e gordos pareciam os gatos, a soarem com um contentamento ronronante. Os cidadãos falaram uns com os outros sobre o ocorrido e muito se espantaram. O Velho Kranon insistiu mais uma vez que foram as pessoas escuras que os haviam levado, visto que gatos não voltam vivos da cabana do velho e sua esposa. Mas todos concordavam em uma coisa: que a recusa de todos os gatos de comerem suas porções de carne ou de beberem seus pires de leite era extremamente intrigante. E por dois dias inteiros os gatos lustrosos e preguiçosos de Ulthar não tocaram em comida, apenas dormitando em frente às lareiras ou ao sol.
Passou-se uma semana inteira antes que os aldeões notassem que luz alguma aparecia ao entardecer nas janelas da cabana sob as árvores. O magro Nith observou então que ninguém havia visto o velho ou sua esposa desde a noite em que os gatos desapareceram. Dada outra semana, o burgomestre decidiu vencer seus medos e fazer uma visita à morada estranhamente silenciosa como uma questão de obrigação, embora ao fazê-lo teve o cuidado de levar consigo como testemunhas Shang, o ferreiro, e Thul, o canteiro. E quando arrombaram a frágil porta, o que encontraram foi somente isto: dois esqueletos humanos completamente limpos no chão batido e alguns besouros peculiares rastejando nos cantos escuros.
Posteriormente houve muito que se falar entre os habitantes de Ulthar. Zath, o legista, discutiu demoradamente com Nith, o magro notário; e Kranon, Shang e Thul foram assaltados de perguntas. Até mesmo o pequeno Atal, o filho do estalajadeiro, foi rigorosamente interrogado e recebeu uma guloseima como recompensa. Conversavam sobre o velho e sua esposa, sobre a caravana de peregrinos escuros, sobre o pequeno Menes e seu gatinho preto, sobre a prece de Menes e sobre o céu durante essa prece, sobre as ações dos gatos na noite em que a caravana partiu e sobre o que foi encontrado mais tarde na cabana sob as árvores escuras no pátio repulsivo.
E, por fim, os habitantes promulgaram aquela lei notável que é mencionada pelos comerciantes em Hatheg e discutida por viajantes em Nir; a lei que diz que, em Ulthar, homem algum pode matar um gato.


[Escrito em 15 de junho de 1920 e publicado originalmente na edição de novembro de 1920 do jornal amador The Tryout.]
Tradução de Gabriel Oliva Brum

sábado, 7 de maio de 2011

Jogo de tabuleiro: Shogi - O xadrez japonês



Jogo similar ao Xadrez, difundido no Japão e, provavelmente, originário da China.

Os jogadores controlam dois exércitos iguais (o reinante e o desafiante). As peças não apresentam diferença de cor, mas têm um formato de flecha. A única coisa que diferencia as peças dos dois exércitos é a direção em que estão voltadas.

Cada exército tem inicialmente as seguintes peças: 

  • 1 Rei (move-se como o Rei do Xadrez)
  • 2 Generais de Ouro (move-se 1 casa na vertical ou na horizontal ou 1 casa na diagonal para a frente)
  • 2 Generais de Prata (move-se 1 casa na diagonal para frente ou para trás ou 1 casa na vertical para a frente)
  • 2 Cavalos (move-se como o Cavalo do Xadrez, mas apenas para a frente, ou seja, cada Cavalo só pode se mover para 2 casas)
  • 2 Lanceiros (movem-se como a Torre, mas apenas para a frente)
  • 1 Bispo (na verdade, a tradução seria algo como "andador em ângulo", move-se como o Bispo)
  • 1 Carro Voador (move-se como a Torre)
  • 9 Soldados (andam - e capturam - apenas 1 casa para a frente).

O tabuleiro é um quadrado de 9x9 casas sem distinção de cor.
O objetivo é dar mate ao Rei adversário.

Quando uma peça alcança uma das 3 últimas fileiras, pode ser promovida a critério do jogador (a promoção não é automática como no Xadrez). Isso é feito virando a peça. Na outra face, ela apresenta o símbolo da peça promovida. O General de Prata, o Cavalo, o Lanceiro e o Soldado, passam a se mover como um General de Ouro (embora mantenham símbolos diferentes). O Bispo e o Carro Voador são promovidos, respectivamente a Cavalo Dragão e Rei Dragão, que se movem como a rainha ocidental. O Rei e o General de Ouro não são promovidos.

A principal diferença, no entanto, está nas capturas. As peças capturadas não são definitivamente removidas do jogo. Na sua vez, um jogador pode optar, ao invés de mover, colocar uma peça que havia capturado do adversário (por isso as peças não são diferenciadas pela cor). Isso torna o Shogi um jogo onde o empate é um resultado muito raro.





sexta-feira, 6 de maio de 2011

Gintama - o melhor anime do mundo!




     Gintama é escrito por Hideaki Sorachi e publicado semanalmente pela revista japonesa Shounen Jump, da editora Shueisha. Reúne os mais diversos tipos de gêneros: ação, aventura, comedia, drama, ficção científica e até alguns episódios de terror, mas sempre voltados pra comedia como tema principal.

     A história de Gintama ocorre em Edo (atual Tóquio), no Japão, que foi conquistada por alienígenas (chamados de Amanto). Os samurais do Japão lutaram contra os estrangeiros, mas depois de sua derrota os Amantos colocaram uma proibição de espadas. A trama é focada em um samurai excêntrico, Sakata Gintoki que ajuda um adolescente chamado Shimura Shinpachi salvar sua irmã Otae de um grupo de alienígenas que querem torná-la parte de um bordel. Impressionado com Gintoki, Shinpachi se torna seu aprendiz e trabalha com ele como freelancer para pagar o aluguel mensal onde vive Gintoki, bem como saber mais sobre ele.

     Os dois resgataram uma adolescente alienígena chamada Kagura de um grupo de Yakuza, que queria usar a sua força sobre-humana para matar pessoas. Kagura se junta á Shinpachi e Gintoki para trabalhar como Yorozuya (literalmente faz-tudo). Ao fazer o seu trabalho se deparam muitas vezes com a força policial Shinsengumi, que normalmente aliado com eles no seu trabalho, uma vez que geralmente envolvem criminosos perigosos. Eles também vêm ao encontro de antigos camaradas de Gintoki durante a invasão Amanto, incluindo o terrorista Kotaro Katsura que mantém um relacionamento amigável com eles, apesar de sua ambição de ser um terrorista procurado.

     Gintama é legendado atualmente pela hacchi fansub, que faz um belissimo trabalho na tradução e adaptação de algumas piadas. 

Trailer da temporada de 2011:



Gintama tambem é famoso por fazer parodias de outros animes:





Mas nem só de comedia vive um anime...




para finalizar, algumas imagens:






Videos da semana: Física quântica fácil de entender

Nessa semana, trago um ótimo documentário da Discovery sobre física quântica:







quinta-feira, 5 de maio de 2011

Gueixas





A casa das gueixas se chama oki-ya. Embora hoje nem todas as gueixas vivam de fato no oki-ya, normalmente elas começam a carreira morando nesse local. A okami-san, proprietária do estabelecimento, é a responsável pelos negócios e pela formação das gueixas. Ao mesmo tempo em que é a autoridade da casa, atua como uma espécie de segunda mãe para elas. Em geral, a própria okami-san é uma ex-gueixa. 



Os bairros onde as gueixas moram são conhecidos como hanamachi, e os principais bairros estão localizados nas cidades de Kyoto e Tokyo. Uma gueixa iniciante é chamada de maiko - embora também exista a denominação tamago para as aprendizes mais novas. 
Antigamente, não era raro as famílias pobres do Japão venderem suas filhas para bordéis, com o objetivo de reduzir o número de bocas para alimentar. Se essas crianças fossem consideradas bonitas ou muito inteligentes, poderiam ser treinadas para se tornarem gueixas, tendo acesso a uma formação privilegiada. 




Hoje, as poucas jovens que ingressam numa oki-ya o fazem por livre e espontânea vontade, muitas vezes atraídas por uma visão romantizada da profissão ou pelo amor pelas artes tradicionais do país e precisa se submeter a vários anos de rigoroso aprendizado, em que aprende a dançar, cantar e tocar instrumentos (como o shamisen, tradicional instrumento de cordas japonês).Além dessas habilidades, a formação de uma gueixa também pode incluir as artes da caligrafia, da pintura e da cerimônia do chá. 




Os custos do treinamento e dos quimonos são extremamente altos. Por isso, a figura do danna (patrocinador) é crucial para várias gueixas. Ele é o cliente especial que financia esses gastos, e com quem a gueixa mantém uma relação duradoura e íntima - embora muitas gueixas prefiram não ter esse tipo de relacionamento. Não é raro que o danna seja um homem casado, nem que a gueixa se torne seu amante. Mas uma verdadeira gueixa só se envolve sexualmente com um cliente quando assim desejar ou quando seu relacionamento vem de longa data (como é o caso do dana) - mas esse é um ponto de difícil compreensão tanto para os ocidentais como para os próprios japoneses. 




Mas essa vida diferenciada cobra seu preço: apesar de não serem explicitamente rejeitadas pela sociedade japonesa, as gueixas não se inserem no convívio social. 
Quando uma adolescente decide se tornar uma gueixa, a reação dos pais quase sempre é negativa, para dizer o menos; e o casamento, para uma gueixa, é algo impossível, a menos que se desista da profissão. 



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pau Brasil ou HY Brasil? qual a verdadeira origem do nome de nosso país?


     O paraíso na terra era conhecido como Brazil, num tempo anterior a 1500. Mapas medievais indicavam uma ilha a oeste da Irlanda chamada Hy Brazil (Hy indica o I de Island) . Algumas lendas diziam que se tratava de uma ilha mágica, coberta de ouro, belezas naturais e gente feliz. Outras fofocas antigas informavam que a ilha surgia a cada sete anos. Era avistada entre nevoeiros e reaparecia mais longe, antes que fosse possível atracar.
     Outras ilhas míticas resultaram ser verdadeiras, mas Hy Brazil nunca foi encontrada. Um dos que avistaram o lugar lendário foi o capitão Jonh Nisbet, numa viagem entre França e Irlanda, em 1674. Chegou a ganhar direitos da coroa para explorá-la, mas, claro, não a encontrou novamente. Para jogar o balde de água fria na magia, dizem que o tal lugar pode ter sido uma formação vulcânica passageira, o que explicaria o nevoeiro presente nas estórias. Mas uma lenda ligada à tradição celta retira autoridade de qualquer São Tomé: era preciso ter olhos “de ver” para enxergar Hy Brazil, pertencente ao mundo da vida após a morte.
     Agora, se o nome do nosso país vem daí, não há consenso. A ilha talvez tivesse esse nome por causa de um semi deus chamado Breasal. E o nosso Brasil é adjetivo para a cor de brasa que o caule do Pau Brasil tem por dentro, responsável pela tintura rubra tão apreciada àquela época da exploração européia.
     Caso o nome realmente tem origem nessa lenda, a hipótese que explica tamanha popularidade da outra versão é que exploradores do Pau Brasil associaram os nomes e ajudaram a difundir entre a população.



Os 47 ronin





A história verídica dos 47 Ronin da província de Harima é provavelmente a história mais conhecida do valor dos ideais e valor do Bushido.



A lenda começa em 1701, um tempo de paz durante o Shogunato de Tokugawa.

O Shogun Tsunayoshi vivia e reinava em Edo, enquanto o Imperador, que tinha muito pouco poder político, vivia em Kyoto. Para mostrar respeito para com o Imperador, Tsunayoshi enviava presentes para Kyoto por altura das celebrações do Ano Novo, e em retorno o Imperador mandava os seus presentes de Kyoto para Edo. Numa destas trocas de presentes Tsunayoshi decidiu enviar dois dos seus novos daimyos para receber os mensageiros imperiais. Naganori Asano-Takuminokami, Senhor do Castelo de Ako na província de Harima e Munehare Date, Senhor de Sendai. Pelo fato destes daimyos serem muito inexperientes em receber tão altos visitantes, o Shogun decidiu designar um alto oficial chamado Yoshinaka Kira-Kozukenosuke para os apoiar.

Kira, que era um homem arrogante e de má fama, ficou bastante irritado com Lord Asano por este não o presentear com caros artigos em sinal de apreciação e respeito por sua ajuda. Desta forma, Kira em vez de ajudar Lord Asano prejudicava-o sempre que podia e rebaixava-o publicamente sempre que tinha oportunidade. Depois de um par de meses, nesta situação de abuso a tolerância, a paciência de Asano acabou.

A 14 de Março incapaz de suportar mais os insultos de Kira, Lord Asano desembainhou sua Katana (em si uma ofensa capital quando efetuada dentro do castelo de Edo) e feriu Kira de leve. Por esta ofensa, o Shogun Tsunayoshi ordenou a Lord Asano que cometesse imediatamente seppuku. Kira, por outro lado, não recebeu qualquer punição. pelo contrario foi-lhe permitido continuar com os seus deveres oficiais. 

O fato do Shogun não ter punido Kira e ter ordenado a execução de seppuku a Lord Asano irritou por demais os seguidores e amigos de Asano.

De acordo com as leis reinantes quando um samurai cometia seppuku, o seu castelo era confiscado pelo Shogun, a sua familia era deserdada, e os seus 321 samurais eram ordenados a separar-se e a dispersar, tornando-se assim Ronins. Os samurais de Asano não estavam muito conscientes de como atuar perante esta situação. Alguns pensavam que deviam se recusar a entregar o castelo ao Shogun, outros achavam que deviam planejar uma ação de vingança e matar Kira, outros achavam que deviam respeitar a lei e render-se pacificamente.

Oishi Kuranosuke, chefe conselheiro de Lord Asano, depois de ouvir todas as opiniões transmitidas pelos samurais decidiu traçar um plano. Ele iria pedir ao Shogun o reestablecimento da "Casa de Asano" encabeçada pelo irmão mais novo de Lord Asano, Daigaku. Se esta petição falhasse os samurais de Lord Asano iriam se recusar de entregar o castelo e iriam defende-lo até à morte.

Nos dias que se seguiram, enquanto os agentes do Shogun se encaminhavam para Ako todos os samurai que se oponham à petição foram saindo do castelo, deixando apenas 60 samurais fieis a Lord Asano. Mesmo antes que qualquer dos emissários do Shogun chegassem ao castelo, Daigaku Asano enviou uma mensagem a Oishi pedindo-lhe que obedecesse às ordens do Shogun e entregasse o castelo.

Oishi e os restantes 59 samurais aceitaram o pedido de Daiguku, mas antes de entregarem o castelo decidiram traçar um plano de modo a restaurar a honra de seu mestre Lord Asano matando Kira, cujo caracter pouco tinha a haver com os samurais e que tanta desonra trouxe à familia de Lord Asano. Apenas a sua morte reporia de novo a honra a Lord Asano e a sua familia.

Deste modo separaram-se por forma a conceber e levar o seu plano em frente. Naturalmente que Kira suspeitava que os samurais de Asano tentassem se vingar dele. Para afastar qualquer tipo de suspeita Oishi retirou-se para Yamashima, suburbio de Kyoto, onde foi ganhando a reputação de jogador e bêbado, o que fez diminuir a guarda por parte do Shogun, bem como os espiões de Kira.

O Shogun ainda com receio de que a questão da morte de Lord Asano ainda não tivesse resolvida ordenou a prisão de Daigaku Asano e sentenciou o seu confinamento e de sua familia a uma pequena província, acabando assim, com alguma esperança que pudesse haver quanto ao reestablecimento da "Casa de Asano".

Durante cerca de dois anos eles esperaram pacientemente, disfarçados de comerciantes, de vendedores de rua e até de bêbados, procurando obter informações sobre Kira e estando atentos aos seus movimentos por forma a encontrar uma oportunidade para tomar de assalto a sua mansão. Até que finalmente Kira relaxou e diminuiu o desconfiança e a guarda a Oishi e seus companheiros.

Numa reunião secreta Oishi e os outros 59 Ronin decidiram que o tempo deles era chegado e que eles deveriam devolver a honra a seu mestre. Oishi decidiu levar consigo apenas 46 dos 59 Ronin. Ele decidiu enviar os outros 13 para junto das suas familias.

Um por um Oishi e os seu homens infiltraram-se em Edo, e numa noite de Inverno a 14 de Dezembro de 1702 os 47 Ronin atacaram a mansão de Kira enquanto ele dava uma festa do chá. Os 47 Ronin divididos em dois grupos atacaram a mansão pela entrada principal e pelas traseiras. Nessa batalha os 47 Ronin lutaram contra 61 guardas armados . Ao fim de uma hora e meia de batalha, os Ronin de Asano tinham morto ou capturado todos os guardas de Kira sem nenhuma perda.






Depois de uma busca pela mansão, Kira foi encontrado escondido na casa de fora. O Ronin trouxe Kira para o atrio principal e frente aos outros 46 deu-lhe a mesma oportunidade que foi dada a Lord Asano: morrer honradamente cometendo seppuku. Kira não queria cometer seppuku pelo que o Ronin o decapitou. Depois, para simbolizar a conclusão da sua missão, os 47 Ronin voltaram onde tinha sido sepultado Lord Asano no templo Sengaku-Ji e lá colocaram a cabeça de Kira, declarando assim a honra de Lord Asano redimida.



Preparados para morrer, Oishi enviou um mensageiro à Edo, informando o que tinha sido feito e dizendo que eles iriam ficar à espera no templo Sengaku-Ji, a aguardar ordens do Shogun.

O Shogun Tsunayoshi , em vez de ficar profundamente irado com o acontecimento, ficou muito impressionado com a enorme lealdade demonstrada pelos 47 Ronin. Este fato tornou a decisão de Tsunayoshi ainda mais difícil. Deveria ele apenas separar os 47 Ronin como reconhecimento pelo a sua enorme demonstração de lealdade para com o Bushido ou deveria ele puni-los de acordo com a lei? 

Depois de 47 dias de reflexão, Tsunayoshi ordenou que Oishi e 45 dos Ronin se matassem, não como meros criminosos mas como honrrados guerreiros. O mais novo dos Ronin que foi enviado a Ako com a noticia da morte de Kira foi poupado a esta sentença.

Em 4 de Fevereiro de 1703 os 46 Ronin foram divididos em quatro grupos e entregues a 4 diferentes daimyo, que foram ordenados de supervisionar e testemunhar as suas morte. Oishi e os outros 45 Ronin cometeram seppuku simultaneamente, dignificando-se no seu valente sacrifício  Depois das suas mortes, os 46 Ronin foram enterrados lado a lado com seu mestre no templo Sengaku-Ji.

Hoje em dia, a memória dos 47 Ronin é celebrada numa peça chamada Chusingura que leva a platéia às lágrimas. Adicionalmente, cada ano milhares de Japoneses visitam o local onde estão enterrados os corpos do 46 Ronin no Templo Sengaku-Ji para prestar homenagem à honra e lealdade dos 47 Ronin e a sua dedicação ao codigo do Bushido.